Noite de Fevereiro

Noite chuvosa e fria,
Estrada molhada, deserta, escorregadia.

O rádio tocava o que querias escutar,
A tua boca falava as palavras que queria ouvir,
O momento... ah, tão bom para não aproveitar!
Quero... Quero-o repetir!

Pecados contados no banco direito,
Memórias divulgadas no assento do condutor,
Frases que me deixaram sem jeito,
Palavras com um efeito apaziguador.

A tristeza tomou conta de mim,
Como se tratasse de um nevoeiro,
E com um beijo colocaste um fim
Àquela mágica noite de Fevereiro.

Ampulheta

Dizem que o tempo é o melhor amigo
De todos aqueles que de amor têm sofrido,
É o grande agente do esquecimento,
O apaziguador do sofrimento.

Aquecendo um coração esquecido
Nasce o sol todo o dia com ardor,
Mesmo não tendo merecido,
Teve o melhor do nosso amor.

Agora apenas a revolta está presente,
Para esse tal que sofreu,
O tempo tudo curará brevemente
Essa raiva que não desapareceu.

Vira esse objecto intrigante,
Aquele a que vida chamas...
Cabeça levantada e força avante,
Não deixes ninguém ver essas lágrimas!
Que derramas...

Despido

O mundo corre.
Mais despido a cada volta em torno de si mesmo e de tudo o resto.
Mais só. Mais pobre. Mais frio. Mais nu.
O mundo corre. Cada vez menos.
O mundo fez juras e promessas. O mundo deixou assente que ia fazer, que ia tentar, que ia conseguir. Frases ocas das quais se despiu assim que abriu os olhos no amanhecer seguinte.
Viu-se amparado pelo céu imenso, pelas próprias estrelas.
Enganado estava o céu quando pensou que o mundo vestiria de novo todas as juras que esquecera. Enganadas estavam as estrelas quando pensaram que o mundo pediria o seu brilho todas as noites.
Enganado estava o mundo quando se despiu do céu e das estrelas.