Vulto


Um habitual formigueiro toma conta da minha mão. Completamente desligada do meu ser, não conseguia fazer parte de mim naquele momento, era uma mão morta. Mão essa que precisava de bater à tua porta, mas sem forças tal era impossível, tanto que alguém a abriu e daí um vulto surgiu...

Vulto que deixaste a tua marca, vulto de forma perfeitamente definida, mas acima de tudo um vulto escuro. Que seria aquele "vulto"? E eis que sinto que vai soltar algumas palavras... Solta... Solta... "Deixa esta porta aberta!", segredava-me ele ao ouvido, enquanto me interrogava agora sobre que porta se referia aquela figura encantadora...

Figura encantadora? Torna-me-ia agora um ser reles que viveria subjugado às palavras de uma sombra forte e escura? Mas ela teimava em continuar a perseguir-me e eis que uma estranha sensação de alegria e raiva me invade a alma... Ora raivoso, ora radiante... Os olhos encheram-se imediatamente de raiva, não uma qualquer... Sentia aquela raiva, de quem tinha consciência que estava a ser enganado e que se tratava de uma “canção de embalar”, que me adormeceria até ao sono da perdição!

Começava a encaixar todas as peças que o vulto me tinha dado, mas era tarde demais quando cheguei à conclusão, que era mais um vulto que me levaria até ao sono da perdição. E assim o vi desaparecer...

Adaptado da Creep dos Radiohead

Não lhe conseguia olhar nos olhos, talvez por parecer um anjo ou até pela sua pele lhe fazer chorar... Os seus cabelos flutuavam como penas, mas o rapaz apenas se conseguia sentir como um verme no meio dum mundo tão bonito e dum momento tão encantador. Interrogava-se se ainda pertencia àquele lugar, já que nada daquilo fazia sentido para ele e tudo o que queria era que ela soubesse que quando não se encontrava por perto ela ainda continuava a ser especial! A rapariga teimava em fugir mais uma vez, fugir para longe, fugir para onde nunca mais seria encontrada, mas ele, com a sua teimosia habitual, ainda pensava ter hipóteses de te tornar especial...

Um aventureiro, um ídolo, um exemplo a seguir...


"Assim, muitas pessoas vivem dentro de circunstâncias infelizes e ainda não vão tomar a iniciativa de mudar a sua situação porque estão condicionadas a uma vida de segurança, conformismo e conservadorismo, que pode aparecer para dar uma paz de espírito, mas nada na realidade é mais perigoso para o espírito aventureiro dentro de um homem que um futuro seguro. A coisa mais essencial do espírito vivo de um homem é sua paixão pela aventura. A alegria da vida vem dos nossos encontros com novas experiências e, portanto, não há alegria maior do que ter um horizonte infinitamente alterando, para cada dia ter um sol novo e diferente."
--- Chris McCandless

Retrato

A incerteza impede-o de completar o maior desafio de toda a sua carreira como mero escritor, esta não o deixa escrever o seu próprio retrato. As ideias começavam a escassear mas ainda conseguia escrever mais umas pequenas linhas… Tenta descrever-se duma forma algo original e assim, numa folha, começa a escrever:

"Apenas em mim pensava,
Mesmo quando alguém reclamava
Apenas eu interessava,
Mesmo quando um hino entoava.

Hino de tristeza, hino de alegria,
Entoado de noite ou de dia,
Hino à razão, hino à teimosia
Entoado numa suave melodia.

Para quê a curiosidade
Quando existia a mediocridade?
Para quê a criatividade
Quando existia a dificuldade?

Eis o meu retrato…"

A "marca"

Deixas-me perplexo, tamanha é a frontalidade com que me enfrentas depois de tudo o que se passou entre nós. Não ficaste indiferente a todos aqueles momentos, mas continuará a “marca” bem presente? Continuarão todos aqueles momentos de curtos minutos, a tornarem-se uma eternidade para ti?
Por vezes, a vontade faltava-me para conseguir alcançar aquele objectivo e, mesmo com grandes resistências da tua parte, ainda me restava aquela réstia de esperança que me continua a fazer acreditar que tudo o que queria era possível. Consegui? Não. Desisti? Ainda não, mas isto vai-se convertendo em cada vez algo mais fraco e aquela “marca” vai desaparecendo…

Segunda Oportunidade?

Olho-te. Olhos nos olhos. Já não sinto aquela admiração, tudo se foi, rápido como o vento. Fugiste, e agora? Não quero saber. Dás-me um abraço, mesmo sabendo o quanto isso me magoa. Sem me aperceber, choro. Reparas nisso e logo me amparas, colocando, suavemente, a tua mão sobre a minha triste face. Pedes-me desculpa. Desculpa. Desculpa. Outra vez, desculpa. Pensas que é só isso, que basta uma pequena palavra, mesmo que repetida algumas vezes, para tudo voltar ao normal. Pensas mal. Tudo o que passei, o que sofri, o que chorei... Não se sara com um "Desculpa". Arrependimento. Que te vale? Não me posso sentir arrependido do que chorei quando foste embora, do nada, porque simplesmente não consigo. Voltas a pedir-me desculpa e deixas também cair uma lágrima. Não consigo saber se isso tudo que sentes é verdadeiro ou se é uma farsa. Não entendo, por mais que pense, se te hei-de perdoar ou não. Já não percebo o que a minha natureza me diz para fazer, já nem sequer consigo decidir se seguir, outra vez, o coração me levará até à felicidade. Quero tempo. O tempo cura tudo. És compreensiva e dás-mo. Com isso, surpreendes-me imenso.Todos merecem uma segunda oportunidade? Talvez... Depois de tudo, ainda fico na dúvida se o serás ou não.